Aluna-uniban: 158 a 164158. O enredo é conhecido, até porque saiu no Fantástico: uma aluna foi ameaçada de linchamento pelos seus colegas e suas colegas de universidade, que “julgaram” o seu traje inapropriado para o lugar em que se dedicariam à elevação e à consagração do conhecimento. Ao subir a escadaria, um grupo de alunos, que se dedicara, há pouco, à elevação de copos de cerveja nos barzinhos no entorno da universidade, já teriam vislumbrado a cor de uma peça íntima, e, entre urros, berros e assovios e outras manifestações de êxtase sexual reprimido, iniciaram ali um movimento grupal similar à chamada “operação cavalo doido”, capaz de desestabilizar até um presídio de segurança máxima.
159. Certa vez um jovem homossexual muito admirado e cobiçado pelos atenienses foi queixar-se a Diógenes sobre o incômodo que representava em sua vida o assédio de grande número de admiradores. A resposta do mestre, “Cessa de provocá-los exibindo esses sinais de convite”, parece bem se aplicar como um conselho à aluna-uniban. A resposta, no entanto, não nos satisfaz inteiramente, porque lançaria toda a responsabilidade pelo acontecimento sobre a mulher. É preciso fazer uma relação de causação última a partir, por exemplo, da venda de cerveja até as grandes redes de tevê promotoras das vendas das cervejarias e encontrar a semelhança entre a vestimenta despojada da aluna-uniban com as modelos que estão estampadas nos rótulos, tampinhas e nas campanhas publicitárias do produto. No fundo disso tudo talvez cheguemos a uma sociedade embriagada e devassa, e, se tivéssemos, como Diógenes, que viver de sua esmola, como vivem os nossos aposentados, seria o caso de pedir logo uma quantia elevada pela incerteza de uma nova oportunidade.
160. Epicuro foi um filósofo tão perseguido pelos maus entendedores, pelos ignorantes e pelos caluniadores das escolas rivais, que, se comparássemos a sua obra com um manto completo, teríamos que dizer que o que restou está reduzido a um tapa-sexo ou a um fio dental. Pois Epicuro, em um pedacinho de uma carta que chegou à posteridade, escreve a um amigo comentando a notícia que chegara até os seus ouvidos de que os apetites carnais do amigo ou discípulo o levavam a exagerar no número de relações sexuais. O conselho do mestre, que é um conselho que se dirige a toda nossa sociedade hedonista vulgar: segue os teus apetites, mas não deixe de pensar nos prejuízos que os apetites desmedidos da carne te causarão. Os prejuízos mais frequentes: infringir as leis, ofender a decência, magoar algum amigo, abalar a saúde, desperdiçar o dinheiro. É difícil, porém, diz Epicuro, não ficar emaranhado em uma dessas dificuldades.
161. Nas questões do amor e da carne, o empate é uma vitória.
162. Diógenes, na saída de uma de nossas universidades ou escolas, se indagado se era frequentada por muitos alunos, responderia: “Alunos, sim, mas estudantes, poucos”.
163. A união nacional dos alunos acabou de lançar um manifesto em defesa da aluna-uniban. Sua estrutura básica e arcaica em termos do discurso político-alunil é a seguinte: “nós enquanto mulher”. Nós propomos algo mais abrangente e assustador: nós enquanto sociedade embriagada e possuída pela ideia da posse infinita da carne. Insensatez!
164. O sistema hedonista vulgar tem uma grande capacidade de reabsorver as suas vítimas do sexo feminino, sobretudo se forem bonitas, como a professora dançarina que foi contratada pelo próprio grupo de axémusic que havia exposto a sua parte íntima durante uma exibição improvisada em um show, o que motivara a sua demissão na escola em que trabalhou como professora do ensino fundamental. Os advogados da aluna-uniban parece que também estão vislumbrando um mercado similar para a sua injustiçada cliente, tanto que divulgaram hoje para imprensa apenas uma foto dos olhos dela. O resto apenas com download legal. Faz parte. Mas é possível desviar-se.



