quarta-feira, 4 de novembro de 2009

COLUNA DE OSELTAMIVIR

Aluna-uniban: 158 a 164

158. O enredo é conhecido, até porque saiu no Fantástico: uma aluna foi ameaçada de linchamento pelos seus colegas e suas colegas de universidade, que “julgaram” o seu traje inapropriado para o lugar em que se dedicariam à elevação e à consagração do conhecimento. Ao subir a escadaria, um grupo de alunos, que se dedicara, há pouco, à elevação de copos de cerveja nos barzinhos no entorno da universidade, já teriam vislumbrado a cor de uma peça íntima, e, entre urros, berros e assovios e outras manifestações de êxtase sexual reprimido, iniciaram ali um movimento grupal similar à chamada “operação cavalo doido”, capaz de desestabilizar até um presídio de segurança máxima.

159. Certa vez um jovem homossexual muito admirado e cobiçado pelos atenienses foi queixar-se a Diógenes sobre o incômodo que representava em sua vida o assédio de grande número de admiradores. A resposta do mestre, “Cessa de provocá-los exibindo esses sinais de convite”, parece bem se aplicar como um conselho à aluna-uniban. A resposta, no entanto, não nos satisfaz inteiramente, porque lançaria toda a responsabilidade pelo acontecimento sobre a mulher. É preciso fazer uma relação de causação última a partir, por exemplo, da venda de cerveja até as grandes redes de tevê promotoras das vendas das cervejarias e encontrar a semelhança entre a vestimenta despojada da aluna-uniban com as modelos que estão estampadas nos rótulos, tampinhas e nas campanhas publicitárias do produto. No fundo disso tudo talvez cheguemos a uma sociedade embriagada e devassa, e, se tivéssemos, como Diógenes, que viver de sua esmola, como vivem os nossos aposentados, seria o caso de pedir logo uma quantia elevada pela incerteza de uma nova oportunidade.

160. Epicuro foi um filósofo tão perseguido pelos maus entendedores, pelos ignorantes e pelos caluniadores das escolas rivais, que, se comparássemos a sua obra com um manto completo, teríamos que dizer que o que restou está reduzido a um tapa-sexo ou a um fio dental. Pois Epicuro, em um pedacinho de uma carta que chegou à posteridade, escreve a um amigo comentando a notícia que chegara até os seus ouvidos de que os apetites carnais do amigo ou discípulo o levavam a exagerar no número de relações sexuais. O conselho do mestre, que é um conselho que se dirige a toda nossa sociedade hedonista vulgar: segue os teus apetites, mas não deixe de pensar nos prejuízos que os apetites desmedidos da carne te causarão. Os prejuízos mais frequentes: infringir as leis, ofender a decência, magoar algum amigo, abalar a saúde, desperdiçar o dinheiro. É difícil, porém, diz Epicuro, não ficar emaranhado em uma dessas dificuldades.

161. Nas questões do amor e da carne, o empate é uma vitória.

162. Diógenes, na saída de uma de nossas universidades ou escolas, se indagado se era frequentada por muitos alunos, responderia: “Alunos, sim, mas estudantes, poucos”.

163. A união nacional dos alunos acabou de lançar um manifesto em defesa da aluna-uniban. Sua estrutura básica e arcaica em termos do discurso político-alunil é a seguinte: “nós enquanto mulher”. Nós propomos algo mais abrangente e assustador: nós enquanto sociedade embriagada e possuída pela ideia da posse infinita da carne. Insensatez!

164. O sistema hedonista vulgar tem uma grande capacidade de reabsorver as suas vítimas do sexo feminino, sobretudo se forem bonitas, como a professora dançarina que foi contratada pelo próprio grupo de axémusic que havia exposto a sua parte íntima durante uma exibição improvisada em um show, o que motivara a sua demissão na escola em que trabalhou como professora do ensino fundamental. Os advogados da aluna-uniban parece que também estão vislumbrando um mercado similar para a sua injustiçada cliente, tanto que divulgaram hoje para imprensa apenas uma foto dos olhos dela. O resto apenas com download legal. Faz parte. Mas é possível desviar-se.

domingo, 25 de outubro de 2009

COLUNA DE OSELTAMIVIR

Falsa analogia: 154 a 157

ampliado em 01-11 (157)

154. Algumas analogias são tão falsas, tão falsas que.... beiram ao cômico. Nessa semana, a ministra da casa civil, na tentativa de refutar a crítica de que estaria fazendo, ao lado do presidente, campanha eleitoral antecipada, apelou para a analogia da mulher pilota de fogão, cujo curral existencial e familiar se restringiria à cozinha, não podendo nem mesmo apresentar-se junto aos garçons ou à mesa para receber os méritos pelos seus dotes culinários.

155. A estratégia, que deve provir de alguma inteligência superior do planalto central, parece mesmo ter como objetivo apresentá-la à massa ignara (Platão) do país como a “mulher do presidente”, uma figura redentora que saltaria salvadoramente das sombras do Estado masculinizado para arrebanhar todo o vasto contingente de mulheres atingidas pelo anedotário e pela prática preconceituosa masculina.

156. O problema dessa estratégia são os fatos, ou o fato (que não é o fato do preconceito contra a mulher): ela não é a mulher do presidente. É a sua eminência parda. É aquela ministra que substituiu José Dirceu e colocou uma ordem na casa e na Casa em plena crise do mensalão, quando o próprio presidente estava sendo ameaçado de impedimento. Nesse ponto, é que surge a falha ou a fraqueza de sua analogia. A casa civil não é, nem de longe, uma cozinha. E, assim como não foi, na ocasião em que assumiu a casa civil, um argumento para não ocupar o posto, não o é também agora na hora de colher os méritos pelo que fez no posto, entre os quais parece estar bem clara a conquista da gratidão e da confiança do presidente a ponto de lançá-la, como parte da sua cota de decisões pessoais, como a sua candidata.


157. A análise precedente remete a uma reflexão que Maquiavel faz a propósito dos ministros ou secretários do príncipe, dividindo-os entre os que pensam mais em si do que no príncipe e os que pensam mais no príncipe do que em si mesmos. No Brasil, a fidelidade de um ministro parece ser mesmo coisa incomum, especialmente porque grande parte dos ministérios são cargos de confiança dos partidos da base coligada. Portanto, a rigor, não são os ministros do presidente, mas dos partidos que representam. Restam ainda aqueles poucos que são escolhidos pelo presidente, em relação aos quais cabe mais propriamente a distinção proposta por Maquiavel, e é de se julgar, pelos próprios fatos, que nem todos pensem mais no presidente do que em si mesmos. Diante disso, não é de se admirar que o presidente queira honrar uma ministra que considera confiável com o apoio para a sua própria sucessão. Mas daí querer apresentá-la à opinião pública como a “mulher o presidente” é, no mínimo, ilógico, embora se entenda porque, de fato, não possa ser apresentada pelo que é, como ministra do presidente: não faltaria aquele ministro que, considerando-se tão fiel ao presidente como a ministra da matriz energética, se julgasse ofendido ou injuriado por tamanha predileção, vindo então a acusar o presidente de antidemocrático.

O TONEL DE DIÓGENES

Diógenes, o cínico, com Laís e sua equipe. Pensem o que quiserem.
O que nós pensamos, depois de muito meditarmos sobre a cena:
Laís: - Diógenes, o que estais lendo?
Diógenes: - Nada de importante, Laís. (De fato, é um livro de Platão detestado por Diógenes, tanto que está todo enrolado, quase no ponto de ser usado como papel higiênico.)
Laís: - Emprestai-me o livro.
Diógenes (sorridente): - És uma tola, Laís. Pois preferes os figos secos reais, ao mesmo tempo em que queres adquirir o conhecimento da vida nos livros, portanto, fora da realidade cotidiana. (Emburrado, de novo) E pare de falar comigo na segunda pessoa do plural. Eu não sou Platão.
Laís, a poderosa cortesã, e Alexandre, o grande, tinham Diógenes em elevada estima. Alexandre, o grande, teria dito que se não fosse quem é gostaria de ser Diógenes. Laís, embora não tenha chegado a tanto em suas declarações, parece que chegou a entrar algumas vezes no tonel do mestre do cinismo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

DIÓGENES: a filosofia no limite entre a razão e a demência

Diógenes, o cínico, tem sido um dos destaques do Lado Cômico. Infelizmente, não tínhamos ainda, para mostrar aos nossos leitores, uma imagem do nosso mestre no início de sua controversa carreira. Recentemente, no entanto, o jovem acima representado, chamado Salvatore Dichiera, trouxe ao mundo, com sua imagem despojada, uma aproximação visual com o mestre do cinismo. (Muito obrigado a Salvatore pela sua participação especial no Lado Cômico).

Diógenes, o cínico, viveu na Grécia antiga e é o autor, entre tantos sketchs filosóficos, do seguinte: um dia teria gritado, em praça pública, "Atenção, homens!"; assim que vários pararam e o circundaram, esperando algum tipo de discurso, começou a girar o seu bastão contra os que ali estavam: "Chamei homens, e não canalhas!" (Curiosamente, é possível estabelecer um paralelo criativo entre o visual de Salvatore e a filosofia de Diógenes, dizendo que o lado sem penas representa o inexistente homem, enquanto que o lado com penas representa a barbárie, a canalhice. Schopenhauer concordaria.)

Aproveitando o momento, já que temos uma imagem aproximada para o ator que representaria Diógenes jovem, publicamos a seguir uma parte do roteiro de um filme sobre a vida de Diógenes: "Díógenes: a filosofia no limite entre a razão e a demência". Alguns produtores já entraram em contato conosco para comprarem os direitos de filmagem, entre eles o Grupo Editora Eternidade. Acompanhem em primeira mão.

DIÓGENES
a filosofia no limite entre a razão e a demência

quadro 1. Fuga de Sinope. Em três planos, sendo um de fuga. Noite escura. Relinchar de cavalos. Inquietude. Diógenes, jovem, ajeitando-se na montaria. Em outra montaria, vai um escravo seu. Em outro plano, os cidadãos de Sinope reunidos. Confrontam duas moedas. “É falsa!”, grita o magistrado (imitando Zeus irado), lançando uma das moedas ao solo. A moeda rola. Todos observam o movimento da moeda. Antes da moeda parar, ela vibra. O som dessa vibração é prolongado, criando um efeito de suspense. No terceiro plano, um regimento de guardas indo em direção a casa de Diógenes. Moeda vibrando. Arrombam a porta. No fundo da casa, na oficina de Diógenes, encontram os moldes das moedas falsas. Moeda vibrando. Diógenes açoita o cavalo. “Para Atenas”, grita. E desaparecem noite adentro, Diógenes e seu escravo, desamparados inclusive pelos deuses. Os guardas chegam ao pátio do estábulo. Não há mais ninguém ali. Quietude. Apenas o som dos grilos (ou outro inseto qualquer da noite) e da respiração ofegante dos guardas. Vapor saindo pela bocas. A moeda falsa jaz estagnada, inerte sobre o solo.

quadro 2. A caminho de Atenas. Diógenes entrando no templo de Delfos, em cuja entrada está a inscrição “Conhece-te a ti mesmo”. Diógenes dirige-se à pitonisa e pergunta: “Apolo, poderoso, que devo fazer para me tornar famoso?”. E a pitonisa: “Eu já te disse, Diógenes: muda as instituições políticas!” E Diógenes: “Mas eu tentei: falsifiquei a moeda para ajudar os operários de Sinope”. “Pensa, Diógenes, pensa”, são as palavras finais da pitonisa, que desmaia. Uma espessa névoa invade o templo. Diógenes sai. De cada visitante imagina ouvir a mesma sentença: “Diógenes, muda as instituições políticas”. Então o escravo de Diógenes, vendo que o mestre vacilava em indefinições, resolve fugir. Um dos frequentadores do templo, percebendo a fuga, diz para Diógenes: “Vês, seu tolo e avoado, que o teu escravo está tomando as rédeas de sua própria vida!” Então Diógenes abre os olhos, imagina que tais palavras tenham provindo do deus Apolo em pessoa e lhe responde, tomado de inspiração: “se meu escravo pode viver sem o seu senhor, então Diógenes também pode viver sem o seu escravo”.

quadro 3. Diógenes chega em Atenas. Cruza o pórtico de Zeus. Diógenes pensou que se, naquela noite, não tivesse onde dormir, dormiria ali. Aproxima-se de uma multidão portentosa, que observa o andamento de uma grande procissão. Dois senhores, que depois viria a saber que eram Platão e Antístenes, conversavam sobre os cavalos que acompanhavam a procissão. Um deles, que lhe pareceu ser um ex-atleta olímpico devido à amplitude de seus ombros, disse: “Mas o que tendes, amigo, contra os cavalos?”. “Nada”, respondeu o outro. O que não aprovo é esse elogio desmesurado que fazes ao animal. Parece-me que também te colocas, em marcha, ao lado dele”. Ouvindo isso, enquanto a procissão e a multidão que a acompanhava se deslocava para os ritos derradeiros na sala das procissões, Diógenes, pensou, e pensou que essa resposta mudava toda uma instituição, a do orgulho. E decidiu que, dali em diante, iria se aproximar para ouvir o que aquele homem tinha para lhe dizer, o que, pela importância do próprio oráculo que Diógenes recebera, era mesmo o que Diógenes devia ouvir e talvez fosse mesmo o que aquele homem, pelos deuses, devia lhe dizer.

quadro 15. Chuva em Atenas. Chuva torrencial sobre Diógenes, o cínico. Semiescuridão. A multidão se aproxima de Diógenes. Sentimento geral de piedade. "Lá vem Platão!", diz alguém. Todos se viram, menos Alexandre, o grande, que está ali disfarçado como um ateniense comum. Luz, muita luz sobre Platão. Protegido por um imenso guarda-chuva e vestindo um dos seus mantos cor púrpura, Platão se aproxima e olha para Diógenes de modo quase paternal; depois, olhando em volta, diz à multidão: "Se quiserdes ter piedade de Diógenes, afastai-vos de Diógenes". E sai, em direção a Academia, levando consigo seu séquito de estudantes vindos de várias partes do mundo. A multidão se afasta também, exceto Alexandre, o grande, que continua olhando para Diógenes.

Diógenes, o cínico, foi o tema do Lado Cômico no mês de JULHO de 2009. Vejam lá: são dez postagens. Salvatore Dichiera foi o tema da polícia dos Estados Unidos, que o manteve preso durante oito horas porque tentava entender, com a ajuda do Robocop, o significado daquela barba e bigode pela metade. Por fim, resolveu mesmo multá-lo por estar transportando uma carga de bebida em um caminhão com a carroceria aberta.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

OPS! precisa ler

Lado Cômico: 5000 páginas acessadas, 3000 visitas em 9 meses. Obrigado a todos.

"Em filosofia, é significativo que tal e tal frase não faça sentido; mas também que ela soe de um modo cômico" (Ludwig Wittgenstein, Zettel, 328). A atividade filosófica como a profissão do hipócrita que procura, pela filosofia, encobertar a ausência de sentido da vida ou, em uma leitura mais generosa, como uma ação ritual caracterítica ou tipificadora do desatino humano ao lançar-se contra as barreiras da linguagem. E isso é cômico. É como andar normalmente e cair, inadvertidamente, em um buraco. Tóin!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

COLUNA DE OSELTAMIVIR

Brutus de Shakespeare: 149 a 153

149. Brutus de Shakespeare é o principal ou o mais importante na “hierarquia” dos conspiradores contra a vida de César, pelo menos na visão de Cássio, que a princípio faz de tudo para tê-lo a seu lado na empreitada que idealiza. Brutus, uma vez persuadido em seu coração em relação ao que julga que deveria ser feito, define-se, e aos conspiradores, não como açougueiros ou carniceiros, mas como sacrificadores cuja meta impossível seria a de atingir o espírito de César. É um argumento sofisticado que Shakespeare coloca em sua boca, elevando-o, e às suas razões republicanas, no cenário do debate que a peça propõe. No final da peça, com a derrocada de seu empreendimento, quando se mata, retoma novamente a ideia que alimentara como justificativa para o seu golpe de punhal contra César, dizendo que não matara César nem a metade do que deveria. (Digo isso como uma breve introdução sobre o personagem, pois o meu propósito é, especificamente, determinar o significado que o nome “Brutus” assume a partir de uma metáfora surreal que Shakespeare lança por meio do irônico Marco Antônio no momento em que fala ao povo apontando para o corpo perfurado e morto de César.)

150. O surreal em Shakespeare: a imagem que Marco Antônio emprega ao falar do sangue de César mortiferamente ferido, sangue que vem espiar, às portas das claridades abertas pelos punhais dos conspiradores, se era mesmo verdade que Brutus também acabara de golpeá-lo, se a verdade que o sangue de César bombeara por tantos e longos anos ao seu coração paternal, que lhe dizia ser Brutus o seu bem-amado, se essa verdade precisava ser revista, naquele momento derradeiro, não pelos olhos de César, mas pelo próprio sangue de César. A decepção e a surpresa da última fala de César, “Et tu, Brute?”, entende-se aqui, pelo contexto do discurso de Marco Antônio. Não encontrei ainda palavras melhores para exprimir a decepção de um indivíduo em relação ao outro como a decepção de um cidadão em relação ao abandono do Estado.

151. “Brutus” significa decepção, tanto de um projeto de filia (amor ou amizade) no plano pessoal como de um projeto de filia política. Interessante assinalar que essa mesma decepção é expressa por Pórcia, a sua esposa, no entanto, sem a surpresa de Júlio César. Argumentativamente e existencialmente, Pórcia é mais madura, na comparação, do que o próprio César e, pela forma com que discute a “relação” com Brutus, poderia ser considerada a primeira personagem feminina com argumentos de uma ainda inexistente mulher moderna.

152. Vagamente, mas ainda como uma impressão indelével da minha juventude tardia de leitor, Cem Anos de Solidão, de Garcia Marquez, retira um grande e até impressionante proveito dessa imagem surreal de Shakespeare.

153. Abaixo, apresento a minha tradução da passagem comentada e, logo após, a passagem no original, evitando assim que o honorável Google, em seu esforço de tradução literal, assassine o nosso bardo. Já temos mortes e traições em excesso nessa Coluna.

Olhem, nesse ponto entrou a adaga de Cássio.
Vejam que fenda abriu o invejoso Casca:
Por ela, o bem-amado Brutus socou o seu punhal.
E, enquanto ele trazia de volta sua maldita lâmina,
Gravem como o sangue de César seguiu-a;
Como correndo para fora das portas para ver
Se era mesmo Brutus quem o golpeara ou não;
Pois Brutus, como sabem, era o anjo de César:
Julguem [..] (tradução livre de HW)

Look, in this place ran Cassius’ dagger through.
See what a rent the envious Casca made:
Through this, de well-beloved Brutus stabb’d;
And, as he pluck’d his cursed steel away,
Mark, how the blood of Caesar follow’d it;
As rushing out of doors, to be resolved
If Brutus so unkindly knock’d, or no;
For Brutus, as you know, was Caesar’s angel:
Judge […] (III, 2)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

COLUNA DE OSELTAMIVIR especial para o Planeta Diário


o supla-homem: 140 a 148

140. Quando se vê um senador de cueca por fora, é-se tentado a dar mesmo razão a Wittgenstein quando diz que as coisas como o Senado são o que parecem, e por trás delas nada.

141. No Brasil, as cuecas estão relacionadas simbolicamente com o modus operandi político e as motivações verdadeiras dos políticos, relação construída na história recente do país pelo transporte do dinheiro sujo de propina e de caixa dois dentro das cuecas ou mesmo, como se noticiou há poucas semanas, pelo modus operandi de vazamento libidinoso de provas do Enem de galpões de gráficas.

142. Em uma época em que os filósofos eram as únicas celebridades da humanidade, cabia-lhes inventar, além de ideias novas, extravagâncias novas. Hoje em dia, além de não inventarem mais ideias novas, tiveram esse segundo papel tomado pelos políticos e pelos que buscam a celebridade para uma candidatura futura.

143. Algumas invenções dos filósofos antigos: dobrar o manto, o que evoluiu, na década de sessenta, para a minissaia. Raspar metade dos cabelos da cabeça: invenção copiada literalmente pelos punks. Apertar as mãos de forma diferente, por exemplo, com os dedos abertos: invenção copiada e adaptada pelas tribos e gangs. Mostrar a parte íntima por um buraco do manto: invenção copiada e radicalizada pelas revistas pornográficas, que mostram o buraco do manto por uma parte íntima.


144. A história não tem moral e, se estamos certos, o que vai mesmo continuar prevalecendo será o lado cômico dos factos e dos fatos ou ternos. Por isso, somos compreensivos com os senadores que querem entrar na história colocando uma cueca sobre o fato.

145. O cômico de Platão ao profetizar o fim ideológico do político pela sua substituição pela figura do filósofo-rei: o político não só não foi substituído como substituiu o filósofo como inventor de extravagâncias, enquanto que o filósofo não conseguiu substituir os seus antecessores gregos como inventor de ideias novas. Assim, a única coisa que restou ao filósofo acadêmico moderno foi um consolo por estar dispensado, felizmente, de inventar extravagâncias.

146. Discute-se, agora, no congresso nacional, se o Supla-homem deve ser punido ou não. Os que argumentam que não deve ser punido dizem que de senadores como o Supla-homem pode-se esperar tudo, e os que argumentam que deve ser punido alegam, no entanto, que o conselho de ética do congresso não tem condições morais de julgar ninguém depois de ter arquivado o caso Sarney. Conclusão: os parlamentares se classificam entre aqueles de quem se pode esperar tudo e aqueles de quem não se pode esperar tudo. Aqueles de quem se pode esperar tudo, justamente porque deles se pode esperar tudo, não podem ser julgados (porque seriam mesmo loucos ou desvairados), e os sãos, de quem não se pode esperar tudo, também não podem ser julgados porque a razão julgadora, o conselho de ética, está corrompida. É o império do gênio maligno cartesiano, mais ou menos conforme está no parágrafo 12 da primeira Meditação: "Suporei, pois, que há, não um verdadeiro Deus, que é a soberana fonte da verdade, mas certo gênio maligno não menos ardiloso e enganador do que poderoso, que empregou toda a sua indústria em enganar-me" (René Descartes, Meditações Concernentes à Primeira Filosofia).

147. A pedra sobre o fato: quatro dias depois.... Como o Supla-homem conseguiu, graças aos seus suplapoderes, impedir que a matéria em que vestia publicamente a sua indumentária de super-herói fosse ao ar na rede de tevê, o corregedor do congresso nacional resolveu não puni-lo, provando-se, com isso, que a instituição política estava apenas preocupada com a repercussão do caso, portanto, com a aparência, e que aquilo que está ou estaria por baixo, seja o que for (ainda que fosse um sungão forrado de dinheiro libidinoso), é nada.

148. A maior prova de que o Supla-homem não é mesmo um super-homem, como chegou a dizer ingenuamente ao vestir a sua cueca vermelha, é que recuou muito facilmente ao se sentir pressionado pelos moralistas, pedindo desculpas e solicitando, pelos serviços já prestados à comédia nacional, a não publicação da matéria junto à emisssora de tevê. O super-homem do congresso, se houvesse um, teria dito que fez aquilo para mostrar publicamente a sua desaprovação com a corrupção, o suborno e os mensalões ao expor ou externalizar, em sua indumentária, o símbolo do transporte do dinheiro libidinoso no Brasil. Mas isso é ficção, e está mais para a Liga da Justiça.

A foto do supla-homem foi tirada por Roberto Stuckert filho e, desde já, tem o voto do Lado Cômico como foto do ano de 2009. Só agora percebo um detalhe da imagem; ao fundo, em terceiro plano, duas mulheres vestindo roupas cor verde, provavelmente funcionárias do congresso, estão levando as mãos ao rosto, admiradas com a Aparição. E olhem que elas já devem ter visto muita coisa surreal pelos corredores do congresso, de anão do orçamento a funcionário fantasma.

COLUNA DE OSELTAMIVIR

chave: 133 a 139

133. O ministro das relações exteriores do Brasil, depois da derrota que a raposa Hugo Cháves e o vaqueiro Manuel Zelaya (nessa ordem) impuseram aos "estrategistas" do Estado brasileiro, resolveu mesmo, pelo visto, virar também comentarista esportivo, não nas horas vagas como o presidente do Brasil, mas nas próprias horas de trabalho. Essa conclusão se deduz perfeitamente da recente declaração do ministro em que manifesta a sua esperança de que a crise em Honduras se resolva inspirada na classificação da seleção nacional hondurenha para a próxima copa do mundo. O ministro seria um comentarista do fair play. Talvez a Fifa o contrate.

134. O mesmo ministro, alinhado com o presidente do Brasil, tem dito reiteradamente que Zelaya ficará na embaixada do Brasil o tempo que for necessário, sendo que, pelo visto, o tempo necessário é determinado por Zelaya e sua equipe, e não pelo governo brasileiro. Portanto, essa declaração do governo brasileiro é uma declaração própria de quem não tem mais escolha, mas quer parecer que ainda tem.

135. Sobre a “reposição” ou a “restituição” de Zelaya. Repõem-se mercadorias, restitui-se dinheiro, imposto de renda. O que se nota é que há também uma crise de vocabulário político.

136. A grande e efetivamente única manifestação social recente em Honduras foi a passeata dos torcedores pelas ruas das principais cidades do país após a classificação da seleção hondurenha para o mundial. A “crise” em Honduras foi mais um factoide político concebido por Cháves e decisivamente elevado ao cenário político mundial com a anuência de um inocente útil, o Brasil. Zelaya, que era, antes de voltar a Honduras, um ex-presidente, encontrou na proteção do governo brasileiro os meios para a sua primeira grande realização: a de mudar a sua condição para um presidente em prisão domiciliar. Falta-lhe agora o último degrau: ser reconhecido como único e legítimo presidente de Honduras. Tudo isso com o mínimo de força e o máximo de astúcia chaveana.

137. Se Honduras cair na chave do Brasil, certamente haverá aqueles comentaristas que falarão em revanche. Pelo que “revanche” tem de “Chávez”, até faria sentido.

138. Um amigo tentou me explicar a questão dos acessos à internete, alegando que, na medida em que a maioria dos internautas seriam analfabetos funcionais, os blogs e sites de maior sucesso seriam aqueles que trariam tudo mastigadinho. Deve ser por isso que o Lado Cômico não é tão acessado, porque volta e meia tem algum leitor que se engasga com o que dizemos.

139. Pior do que analfabeto funcional é letrado funcional.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

COLUNA DE OSELTAMIVIR

fiscal do Enem:128 a 132

128. A população do Brasil, que já foi fiscal de vazamento de inflação, será interpelada pelo ministério da educação para agir como fiscal de vazamento da prova B do ex-novo Enem. Segundo informações vazadas do próprio ministério, cada estudante receberá a nova prova em casa, pelos correios, um dia antes do exame, devendo levá-la, com o lacre inviolado, até o local da aplicação. Não será permitida a entrada dos alunos que estiverem transportando os provões por meios indigestos ou libidinosos como cuecas ou estômagos. (Não seria melhor - sugestão do Lado Cômico - implantar um chip do Enem na cabeça de cada estudante e enviar um sinal pelo satélite social-sat para os locais de aplicação das provas? Ou, se a primeira opção é onerosa, fazer a distribuição por uma tropa de mulas sem cabeça – que essas, pelos menos, não vão pensar em vender as provas para um grande jornal?)

129. A “lógica” do vazamento das provas do Enem e do afundamento do barco: o ministério da educação tem pressa, porque quer implantar, para colher os dividendos já no ano eleitoral seguinte, um vestibular stalinista unificado nacional; por isso, faz uma licitação às pressas, da qual apenas uma empresa ou consórcio participa; as outras acham o prazo de setenta dias muito pequeno para realizar toda a logística da prova. O consórcio contratado tem pressa e, nesse processo, emprega pessoas sem a devida avaliação, entre eles um corretor desempregado, mas que se diz bom mocinho, como nos filmes de cowboy. A gráfica, empresa terceirizada para o serviço de impressão das provas, tem pressa para se ver livre de todo aquele elefante de cobiçado papel encalhado em seus galpões e empresta para o consórcio um puxadinho de suas dependências para ali mesmo montar seu centro de distribuição das provas. Nesse entra-e-sai, nesse empurra-empurra o oportunista encontra o seu espaço. De quem foi a responsabilidade primeira pelo naufrágio do barco?

130. A lógica do tapamento do furo do barco segundo o ministério da justiça: “poderia ter sido pior”. Em qualquer um dos casos, ou o menos pior ou o pior, o barco teria afundado no mesmo dia e hora. Mas entende-se: é menos pior que apenas um furo tenha aparecido.

131. Li o esclarecedor comunicado da gráfica sobre as circunstâncias do furto das provas, dado em suas dependências, não obstante em área alugada gratuitamente por quatro dias para o consórcio finalizar os trabalhos a marteladas. O Inepto, a quem cabia acompanhar, como gestor, o processo de confecção das provas, com direito de recorrer à própria polícia federal, alegou que não fora avisado dessa mudança de última hora. Mas o que fazia, justamente nesses dias críticos em que as provas estavam sendo confeccionadas, o Comitê de Governança da Prova? Bebendo vodka e dando vivas a Stalin?

132. O comunicado da gráfica acima mencionado termina com os seguintes dizeres otimistas: “Certamente o próximo exame não será igual ao cancelado assim como este último não foi igual ao de 2008. Apreendemos todos a lição”. Não entendi: quer dizer que o exame de 2008 também vazou? Porque presumo que a lição que aprendemos não teria sido só em relação ao próximo e o que vazou, mas também relação ao que vazou e o de 2008 que, assim, só pode ter também vazado, ou coisa pior. (A conclusão parece estar em concordância com a lógica do ministério da justiça: uma prova vazada e descoberta antes da sua aplicação é menos pior do que uma prova vazada e não descoberta, pois, no primeiro caso, os ladrões são amadores e, no segundo caso, são profissionais, confundindo-se eles próprios, como diz Shakespeare em Timon de Atenas, com os ladrões das profissões ditas honestas. E aí não tem como achar um culpado ou um bode expiatório, porque todo mundo é culpado.)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

COLUNA DE OSELTAMIVIR

passatempo filosófico

"O estudo que serve para adquirir o reto uso da razão é a mais útil ocupação que se possa ter, como é sem dúvida a mais agradável e a mais doce" (Descartes, Cartas a Elisabeth, carta de 4 de agosto de 1645)

(HINGO WEBER 09) O povoamento do planeta, em uma escala vertiginosa considerando o pequeno período de sua longa trajetória de vida, trouxe e traz à tona, aparentemente de forma paradoxal e até surpreendente para muitos, uma verdade primordial acerca do modo de vida humano: de que o natural da nossa vida, apesar de todos os avanços da ciência, das edificações pomposas, da cultura, da Cidade como símbolo da civilização, de que o natural é o micróbio. Sobre essa proposição, situada no centro do texto logo abaixo, de autoria de Albert Camus, são feitas as afirmações subsequentes ao texto (assinale a única que é verdadeira).

“Cada um leva consigo a peste, porque nada, nada no mundo está imune. E que há de se vigiar sem cessar para não exalar distraidamente um espirro no rosto de outro, e contagiá-lo com a infecção. O natural é o micróbio. O resto, a saúde, a integridade, até a pureza, são frutos de uma vontade, de uma vontade que não deve afrouxar nunca. O homem honesto, o que não contamina a nada e a ninguém, é o que se permite menos distrações” (Albert Camus, A Peste, capítulo IV).

(a) A proposição “O natural é o micróbio” corresponde, em termos da estrutura lógica do argumento de Camus, à proposição “Nada no mundo está imune”.
(b) Ao afirmar que “o natural é o micróbio”, Camus poderia ter dito, sem mudar o sentido do seu texto, que “o essencial é ainda o micróbio”, mostrando, com isso, que a essência determinante da vida humana é invisível.
(c) Existe, a partir da frase em questão, uma ilação moral, que poderia ser assim equacionada: o homem honesto é aquele que não se contamina pelo micróbio, mostrando, com isso, que há um fator genético relacionado à moralidade.
(d) Dizer que “cada um leva consigo a peste” implica em um reconhecimento de que projeto de associação humana está fadado ao fracasso, comprovando a filosofia existencialista e pessimista do autor.
(e) A resistência moral à verdade de que o natural é o micróbio, manifestada por ações conscientes que impeçam a contaminação dos outros, define a verdadeira honestidade.

Se você ficou em dúvida quanto à resposta, procure o "GABARITO" na tira azul ao pé do blog.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

COLUNA DE OSELTAMIVIR

Enêmpolis: 118 a 127

118. De fato, como tínhamos conjeturado aqui, o vazamento das provas do Enem tinha mesmo motivação política, o que foi confirmando pelo modus operandi dos ladrões, que subtraíram as provas da gráfica dentro das suas cuecas.

119. O modus operandi, muito comum por aqui, de transportar dinheiro dentro das cuecas ou provaria que há mais homens corruptos do que mulheres corruptas, ou provaria que as mulheres são mais higiênicas do que os homens. Em qualquer um dos casos, as mulheres estariam em vantagem.

120. Diferença entre dinheiro público e dinheiro particular: o Estado leva um prejuízo de 30 milhões de reais (pagos a um consórcio sob a forma de adiantamento para a confecção de provas de um novo Enem) e as autoridades responsáveis do MEC dizem que vão ver se vão processar ou não o consórcio responsabilizado pelo vazamento das provas. Dinheiro particular: as pessoas se matam por causa de alguns trocados.

121. O que se fala de norte a sul de Enêmpolis: de que os coordenadores da prova receberiam as provas em casa, para, no dia ou nos dias seguintes, levá-las aos locais de aplicação. Isso é o que mais parece ter incomodado o MEC, a provável "boca de urna" da prova, e teria sido o verdadeiro motivo do rompimento do contrato com o consórcio, não obstante o MEC ter criado, para impedir que falhas como essas acontecessem, um comitê de governança da prova, pelo visto mais para comer rosquinhas durante as reuniões do que para governar estrategicamente.

122. Se, para o ministério, o vazamento da prova do Enem é um simples caso de polícia, por que não é também um simples caso de polícia para o consórcio executivo da prova? Não merece ele o mesmo benefício que o ministério pretende atrair para si mesmo? Por que então romper o contrato com o consórcio? E se esse rompimento é justificável, por que não seria também justificável o rompimento do contrato que há entre a população e o ministério?
(As pessoas "formidáveis" não querem fazer perguntas. Querem mesmo que o jornal nacional noticie que os culpados foram presos, dando, com esse sacramento, o assunto por encerrado e colocando-o no lixo do papel reciclado.)

123. Se um caso de polícia fosse suficiente para derrubar um consórcio, teria que ser também suficiente para derrubar um ministério. A partir desse condicional, há duas formas válidas de raciocínio, mas nenhuma corresponde, em sua conclusão, à forma como o mundo anda. A primeira começaria afirmando o antecedente do condicional, com o que até o ministério concordaria, mas não concordaria com a conclusão lógica do argumento: derrubar o ministério. Tentemos agora pelo outro caminho logicamente válido, negando a consequência do condicional, dizendo que um caso de polícia NÃO é suficiente para derrubar um ministério. Até aqui concordaria o ministério, o que já não aconteceria com a conclusão: “um caso de polícia NÃO é suficiente para derrubar um consórcio executor”, porque aqui se precisa, pelo menos, que assim pareça: que houve uma falha humana fotograficamente detectável (nesse ponto, os pretensos vendedores da prova realmente prestaram um favor ao ministério, pois foram justamente vendê-la em um local cheio de holofotes e flashes. Essa parece ser uma das razões pelas quais o ministro os chamou de “amadores”, além das que nós já levantamos aqui e abaixo).

124. Um membro do Comitê de Governança da Prova (CGP, em enempolês), que não estaria comendo as rosquinhas, poderia objetar dizendo que o problema todo está no condicional com o qual se começou a raciocinar: afinal, não se poderia comparar um ministério com uma grande empresa executora de concursos públicos. Por que não? Por que o ministério governa muito mais dinheiro? Por que essas empresas, volta e meia, participam das licitações do ministério e, por isso, de alguma forma, são subordinadas ao ministério? Por que existe uma justiça para o consórcio executor do Enem e outra justiça para o ministério da educação?

125. Essa dificuldade que a lógica encontra ao se deparar com os fatos não prova que estamos errados, mas talvez que somos, não exatamente no sentido político-partidário, um blog de oposição.

126. Gostaria de dizer "filosofia de oposição", mas me contive, porque isso soa redundante.

127. A imagem de Sísifo versus a sua rocha, empurrada morro acima, poderia ajudar a nos definir, não pela oposição à rocha, mas pela oposição ao que está acima dela, no gerenciamento estratégico do castigo de Sísifo.

domingo, 4 de outubro de 2009

COLUNA DE OSELTAMIVIR

A peneira do Enem: 112 a 117

112. Estas são as penúltimas do Enem. As últimas só com os comediantes do próprio ministério.

113. A peneira do Enem tinha muitos furos, mas, como o ministério vazou, de vez, todas as provas assim que a fraude foi descoberta, pensa-se que a peneira só tinha um furinho.

114. O ministério da educação procura agora infundir confiança na população, afirmando que a prova B do Enem está segura em um cofre, provavelmente tão segura como esteve a réplica da copa do mundo Jules Rimet no cofre da CBF.

115. Parece piada para maiores de idade, portanto, imprópria para a maioria dos candidatos inscritos no Enem: a prova teve o seu lacre rompido porque foi dormir, quatro dias antes de sua aplicação, na casa dos coordenadores do Enem em São Paulo.

116. O ministro da educação informou, por ocasião do vazamento da prova A do Enem, que já possuía, em local seguro nas ilhas Caimã ou em algum paraíso intelectual, uma prova B. Sobre essa prova, são feitas as seguintes afirmações (assinale a alternativa que você acha que será a verdadeira depois da aplicação da prova B):
(a) a prova B é idêntica à prova A, e o ministério acredita que nenhum candidato vai pensar nessa possibilidade de variação de jogada.
(b) a prova B é uma variação sobre a prova A, similar à variação entre o par e o ímpar, zero e xis (a prova A joga o jogo da velha com a prova B).
(c) a prova B é praticamente idêntica à prova A, variando apenas os quadrinhos: saem Mafalda e Gato Garfield e entram a Turma da Mônica e o Menino Maluquinho.
(d) a prova B é um blefe: o cofre do MEC está cheio de vento e com algumas rosquinhas mofadas que sobraram da última reunião de planejamento estratégico do chamado "comitê de governança da prova". Enquanto isso, o ministério fez um contrato emergencial com presidiários que se ocupam, como parte da sua atividade de redução progressiva da pena, em elaborar, supervisionados por uma ONG, questões extras do Enem para ver se conseguem compor uma boa grade.
(e) a prova B é a prova A da prova C. Afinal, a prova B também pode vazar.


117. Dois sonhos de consumo da sociedade em 2009 por água abaixo: uma caixinha de Tamiflu sem ágio ou com fonte de procedência e uma prova do Enem não vazada. (Vem aí, em 2010, o sonho de uma vacina contra o H1N1.)

sábado, 3 de outubro de 2009

COLUNA DE OSELTAMIVIR

A contradição do Enem: 105 a 111

105. “Não houve falha, mas o processo tem que ser aperfeiçoado”. Essa é a frase que tem dado o tom das justificativas após o vazamento da prova do suposto novo Enem. Olhando a frase, assim, à primeira vista, parece ser mesmo uma variante sobre as frases usuais que remetem à precariedade da condição humana em geral e à necessidade inerente de um aperfeiçoamento na conduta humana, retirando-se ou minimizando-se, com isso, a responsabilidade daqueles que falham durante o processo. O problema é que nós estamos sempre em processo de aperfeiçoamento, de acordo com essa visão e, desse modo, nada do que fizéssemos ou deixássemos de fazer nos livraria do benefício da dúvida e do erro.

106. Para deixar à mostra a responsabilidade daqueles que erram, é preciso partir o raciocínio de um ponto diferente, inserindo, na equação inicial do argumento, uma proposição que ponha em relevância o próprio princípio da não-contradição e a própria questão da consciência (ou a sua falta) inerente ao princípio da não-contradição. Para fins de ilustração, a frase com a qual iniciei esta coluna receberia a seguinte formulação: “Ou o processo é perfeito ou ele não é perfeito”. Defendo aqui que, tratando-se de uma prova de um concurso público como o Enem (ou qualquer outro), o processo deve ser perfeito. Não sendo perfeito, não importando em que grau, não deve ser executado. Essa conclusão já se impunha pelos fatos durante o próprio estágio de licitação: o prazo de pouco mais de dois meses para viabilizar um exame dessa envergadura, com essa magnitude de infraestrutura, é muito pequeno, o que levou, inclusive, outras empresas a desistirem da licitação, embora, é preciso que se diga, sem grandes prejuízos, pois também elas já tinham outras licitações do governo para cuidarem.

117. Voltando, a partir desse ponto da análise, o nosso olhar crítico para frase inicialmente citada, podemos perceber agora que ela é em si mesma contraditória, carecendo de qualquer sentido, pois, ao se afirmar que “não houve falha no processo”, dá-se a entender que o processo foi perfeito e, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, afirma-se que “o processo, no entanto, precisa ser aperfeiçoado”, dando-se a entender que o processo não foi perfeito. Essa é a contradição da defesa não só daqueles que se propuseram a executar o exame nacional como da defesa do próprio órgão público gestor último dessa aplicação, o MEC, na medida que o ministério se propôs a fazer um exame nacional em tempo muito exíguo e por ter aprovado a proposta de um consórcio sobre o qual já pairavam denúncias e falhas de vazamento de provas em concursos anteriores. Assim sendo, eliminada ou tornada falsa a opção de fazer a prova, só restaria, necessariamente, a alternativa de não fazer a prova. Não se tratava, como o ministro deu a entender, de escolher entre o menos pior e o pior (entre fazer a "prova possível" ou nada), porque o menos pior, fazer um concurso para o qual não havia a devida preparação logística e que tinha tudo para se revelar fraudulento, era o mesmo que escolher, no fim, pelo pior, que é o que agora está se vendo. Portanto (nova conclusão), a decisão que se impunha e que ainda se impõe, também para a prova B, é não fazer. Mas não será assim que o mundo vai andar, comandado pela consciência. A vaidade e o amor próprio estão ainda no comando, e o desejo de ficar na história como um governo que teria implantado uma educação nacional e unificada faz com que o ministério da educação corra agora em direção às instituições públicas confiáveis para realizar a toque de caixa e de verbas suplementares o sonho da revolução pelas habilidades e competências que lançou as escolas de ensino médio do país que ainda tinham algum programa de cabeça para baixo.

108. O ministro da revolução da educação pelas habilidades e competências nem foi competente e nem foi hábil para fazer o Enem.


109. O tempo exíguo para a realização da prova pode ter interferido, embora não necessariamente, na elaboração das questões, tanto pela pouca exigência para um exame que pretendia substituir o vestibular, mas também pela ambiguidade de respostas, tornando-o por isso quase que insolúvel mesmo para o mais preparado dos alunos, a menos que estivesse também preparado para, além de entender a lógica dos enunciados, entender a própria lógica do enunciador da questão. Nessas questões, por simples alinhamento ideológico, os alunos petistas teriam mais sorte.

110. Como novidade, o Enem propôs, nesse ano que não foi, uma questão de filosofia (nº 22, vol. 2). Quem a formulou não foi além dos sites de internet em sua "pesquisa" de material. O Enem poderia servir, nesse ponto, pelo menos para isso: mostrar aos alunos que existem livros genuínos de filosofia e grandes pensadores que merecem e devem ser lidos, a começar por este ou estes que estariam na nossa hipotética questão. Além da simplificação conceitual que a questão de filosofia apresentou, da alternativa proposta como correta, a “E”, não se deduz do texto citado que a democracia é a melhor forma de governo. O texto diz: “que somos remetidos diretamente à questão da democracia” como resposta à miséria, à exclusão, à falta de sentido da vida. Mas dessa remissão não se infere o julgamento de que a democracia seria a melhor forma de governo para as classes menos favorecidas.

111. O novo Enem foi velho no tipo de prova (exceção honrosa às questões de matemática) e na sempre renovada corrupção dos concursos públicos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

COLUNA DE OSELTAMIVIR

Lado Cômico desvenda o mistério do vazamento da prova do Enem: em 12 opções.

(a) A prova vazou porque o MEC resolveu aplicá-la antes para os candidatos corruptos.
(b) A prova vazou porque o cd com as questões originais estava exposto para a visitação pública e download livre, enquanto que o cd com uma cópia pirata da prova estava no cofre do MEC.
(c) A prova vazou porque foi furtada por ladrões amadores, não detectáveis pelos rigorosos sistemas de segurança do MEC.
(d) A prova vazou porque os ladrões eram amadores, isto é, em vez de vendê-la para os estudantes foram logo pedindo 500 mil para um grande jornal.
(e) A prova vazou porque Mafalda e o gato Garfield se desentenderam em duas questões da prova.
(f) A prova vazou porque o cd com as questões originais foi transportado para a gráfica dentro de uma cueca fedorenta.
(g) A prova vazou para mostrar que no Enem também existe sorte e azar (Sorte, porque assim, com o vazamento, o Brasil só vai ter um prejuízo de 30 milhões; azar porque, se o vazamento fosse descoberto após a realização das provas, o prejuízo seria maior do que cem milhões de reais).
(h) A prova vazou e foi reforçar, ao lado de Lula e Pelé, a candidatura do Brasil para as olimpíadas de 2016.
(i) A prova vazou porque não aguentava mais ser chamada de “novo Enem”.
(j) A prova vazou quatro dias antes da data de aplicação para mostrar que o sistema está sendo aperfeiçoado; no próximo ano, vazará seis dias antes.
(k) A prova vazou porque levou uma prensa na gráfica.
(l) A prova teve o seu lacre rompido no meio da semana porque foi pernoitar na casa ou em um motel com algum aplicador do Enem.

(O Lado Cômico, ao contrário do grande jornal que recebeu as provas, coloca todas as opções à disposição da Polícia Federal para averiguação.)