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O craque da seleção da Holanda de 1974, Cruyff (lê-se Cróif) está dirigindo duras críticas à atual seleção brasileira, chamando o futebol praticado na África do Sul de “vergonhoso”, mesmo qualificativo, aliás, que os jogadores italianos e franceses receberam pela sua eliminação precoce do mundial. Engana-se, no entanto, quem pensa que essa é uma estratégia do holandês para fazer com que os “canarinhos divinos”, como é chamada a nossa seleção pelos próprios holandeses, abram a guarda defensiva, amanhã, contra os rivais holandeses. Cruyff já veio, pelas mesmas razões, em defesa da seleção brasileira ao ser eliminada pela Itália no Mundial de 1982, dizendo que só no Brasil se praticaria o “Futebol-futebol, o jogo ofensivo, abertamente no ataque”, e que, por isso, o Brasil teria sido o campeão moral daquela competição, a verdadeira equipe número 1, tal como acontecera com a sua Holanda de 1974, não obstante ter perdido para a Alemanha na final. O argumento de Cruyff, feito na época e, acredito, fundamento de suas atuais ponderações, é a de que, tendo em vista o julgamento futuro do futebol, o que conta é o estilo e o espírito de jogo demonstrado. O resultado seria um simples acidente. Por esse motivo, Cruyff havia qualificado a seleção do Chile, do Loco Bielsa, como a melhor seleção da primeira fase no Mundial. Nas oitavas de final, acreditando que a arte poderia fazer frente ao futebol combativo, obreiro e coletivo da seleção brasileira, Bielsa jogou no ataque e criou, assim, as condições ideais para a exibição mais “artística” do Brasil, levando três gols e inscrevendo a seleção brasileira, em pé de igualdade, entre as seleções mais competitivas do Mundial, tal como aconteceu com a seleção brasileira de 1982 que, por ter jogado com muitos atacantes, permitiu que a fechada seleção italiana pudesse ter feito aquele que é considerado por muitos o melhor jogo de sua história.
Os jogadores da Holanda, que vão enfrentar amanhã o Brasil, não estão nem um pouco convencidos de que devam atacar abertamente a seleção brasileira. Acham, ao contrário, que um jogo “feio”, de marcação, se vitorioso, pode ser mais glorificante do que um jogo bonito, mas perdido. Acreditam, ao contrário de Cruyff, que os homens e as mulheres que torcem para a Holanda, assim como aqueles que, no futuro, viriam a estudar as ações passadas dessa seleção, olhariam essencialmente para o resultado da partida. Mas é preciso compreender Cruyff e imaginar que o seu modo de ver o futebol é uma variação possível, ainda que minoritária, para a nossa existência futebolística.
Há, sem dúvida, uma hipocrisia que reina entre os defensores do futebol-arte: ao mesmo tempo em que o apregoam aos quatro ventos, eles próprios, no secreto de seus corações de torcedores, querem ganhar de qualquer modo, ainda que seja de meio a zero, fato que é comprovado, mais uma vez, pela demissão massiva dos técnicos das seleções até aqui desclassificadas, demissão alavancada, em grande parte, pela imprensa esportiva. No caso de Cruyff, no entanto, não se pode, nem de longe, acusá-lo de hipocrisia, mas apenas descrevê-lo e dizer que seu modo de ver o futebol é diferente, tal como o modo de ver dos daltônicos é diferente do modo de ver das pessoas normais.

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