sábado, 16 de abril de 2011

Como entender a paralisia de Sócrates

Há boas discussões filosóficas que vão cruzar a eternidade se os intrépidos homens de negócio e seus fiéis consumidores não destruírem antes o planeta. Como essa: o quanto do que Platão escreveu sobre Sócrates, que não escreveu nada nem sobre si mesmo nem sobre os outros, teria sido dito e defendido por Sócrates e o quanto seria genuinamente de Platão. Penso que é equivocado, como defendem alguns, que tudo é Platão, porque, afinal, o legado escrito é assinado por Platão. Também não estou discutindo aqui o princípio da autonomia e da independência de Platão enquanto escritor, mas quero me referir a uma independência do personagem Sócrates em algumas obras ou trechos de obras de Platão.


O aspecto que, para mim, manifesta mais a independência de Sócrates e do qual Platão, também como bom escritor, soube tirar proveito em seus diálogos, diz respeito à paralisia de Sócrates antes ou perante uma situação de crise. No Banquete, após o encontro de Sócrates e Aristodemo em uma rua de Atenas, em que decidem, “enquanto dois” que caminham (174 d), o que diriam a Agaton para justificar a presença de Aristodemo, que até então não havia sido convidado pelo anfitrião, Sócrates, tão logo iniciam a caminhada, começa a andar mais lentamente, ficando para trás. Aristodemo faz menção de esperá-lo, mas Sócrates pede que continue sem ele. Ao chegar à casa de Agaton, onde é bem recebido, Aristodemo, ao ser indagado sobre Sócrates, mostrou que presumira erroneamente que Sócrates estaria ainda caminhando a uma pequena distância dele. Agaton envia então um escravo à procura de Sócrates, logo retornando com a notícia de que Sócrates estava paralisado no jardim da casa, recusando-se a entrar. Como entender esse retardo no caminhar e a posterior paralisia de Sócrates?

 Platão, na Apologia de Sócrates, oferece-nos, mais para o final da obra, uma descrição que pode ser tomada como auxílio para entender essa postura do filósofo, afirmando que esse comportamento o acompanha desde a infância da sua vida filosófica: “É que se manifesta em mim algo de divino e demoníaco” (40 b). Não se trata de um conflito entre o divino e o demoníaco, entre o bem e o mal, tal como acontece nas representações maniqueístas em que o mal luta contra o bem. Para Sócrates, os predicados “divino” e “demoníaco” referem-se à mesma “entidade” espiritual, “certa voz que, quando se produz, me afasta sempre daquilo que tenciono fazer e nunca de qualquer modo me impele a agir”. O primeiro efeito visível que a voz produz é o afastamento daquilo que Sócrates pretendia fazer enquanto um, enquanto Sócrates. O segundo aspecto é o resultado do afastamento, o resultado do conflito entre Sócrates e sua voz (embora seja a sua voz, o que ela tem de “demoníaco” indica que atua em um papel discordante): nunca qualquer coisa, nunca qualquer ação, sempre o que deve ser feito, como, por exemplo, não se dedicar à política, à vida pública, mas somente à filosofia, à justiça. (O que haveria, nas ações possíveis em casa de Agaton, que Sócrates como tal não havia avaliado devidamente, talvez por até então estar muito preocupado em se apresentar bonito na casa de um moço bonito?) 

Sócrates ainda afirma, nesse mesmo contexto, que essa “lenda” sobre o demônio de Sócrates teria levado Meleto, um de seus acusadores, a acusá-lo de não acreditar nos deuses oficiais (Zeus, Apolo, Hera...), mas apenas em demônios. O modo de defesa que Sócrates adota é o de mostrar a relação de paternidade entre os deuses oficiais, em cuja existência Sócrates não acreditaria, e os deuses demoníacos, em cuja existência Sócrates acredita (recorrendo, digamos, a uma premissa cultural e religiosa dos gregos) e, com isso, expor a incoerência que seria acreditar na existência de um e não acreditar na existência de outro, levando, dessa forma, Meleto à contradição lógica.

No entanto, nesse comentário breve de Sócrates sobre a sua voz, apresentado após concluída a defesa propriamente dita, podemos desvendar uma leitura mais profunda, proposta pelo próprio Sócrates, para essa figura emblemática do seu demônio: não como deus, como divindade demoníaca, não como um ente sobrenatural, mas como uma voz ou discurso interior, cujo efeito pode ser o de nos fazer parar, caminhar mais devagar, fazer-nos corar perante o erro que se anuncia ou se anunciou. Meleto, ao acusar Sócrates, zomba não tanto de Sócrates por ele próprio ter caído em contradição ao acusá-lo de acreditar em demônios, filhos dos deuses, e, ao mesmo tempo, acusá-lo de não acreditar nos deuses, os pais dos demônios, mas por não ter compreendido que a representação da voz interior e discordante como um demônio é uma imagem da própria, às vezes dividida, condição humana, em que, enquanto um que caminha, podemos ser dois em pensamento. E, quando esse conflito começa a configurar-se no palco do espírito, começa-se a andar mais devagar do que os outros. Contudo, Meleto, que se eterniza não tanto por ter acusado a Sócrates, mas como representante sempre recorrente das classes dos poderosos e injustos, tem pressa. A vida pública e os negócios o esperam. 

Era uma manhã do ano 399 a.C. Sócrates saiu sozinho de casa para se defender, pela primeira vez em sua vida de 70 anos, três filhos, um adolescente, dois ainda pequenos, possivelmente duas mulheres, em um tribunal popular na sua amada Atenas, de onde nunca quis sair. Naquele dia, a sua voz interior, que em tantas questões menores levantou-lhe um sem número de objeções, não o deteve, não se opôs, não se antecipou a algo que Sócrates ia dizer, preenchendo então de aprovação moral os vazios e os silêncios de tudo que fez e disse no tribunal em sua defesa. Platão, no entanto, que conduz a pena da Apologia de Sócrates, fez Sócrates deduzir do silêncio da voz a suposta aprovação de que a morte não seria um mal (40 c), começando a alçar a voz demoníaca de Sócrates da praça em direção ao paraíso das verdades eternas de Platão.



Milhares de pessoas já leram o texto acima, que agora migrou, junto com outros, para dentro deste livro: Sócrates: um retrato lógico e filosófico. Edição bilíngue, Inglês-Português. 210 p.