Platão, no Banquete, apresenta, por meio de Sócrates (Alguns, como eu, pensam que o certo seria dizer que “Sócrates apresenta por meio de Platão”, ainda que Platão tenha escrito a obra), duas definições de amor unidas por um enunciado disjuntivo e pede a Agaton que se defina por uma delas em termos do que havia falado há pouco sobre Eros: ou o amor é amor de algo ou o amor é amor de nada. A disjunção, colocada por Sócrates para Agaton e demais participantes do Banquete sob a forma de uma pergunta, suga ou puxa Agaton e a todos para a primeira alternativa. Ora, tendo sido Eros ou o amor elogiado por todos, como responder que o amor seria amor de nada sem cair em uma contradição risível? Sócrates, com a astúcia e a inteligência dos grandes pensadores, relaciona ao conceito de amor o conceito de desejo, da seguinte forma: sendo, então, pela resposta de Agaton, o amor amor de algo, cabe sempre perguntar se o amor ou Eros deseja esse algo (que, muito mais do que o desejo da pessoa amada, é apresentado, abrangentemente e platonicamente, como o desejo da beleza e o próprio desejo da justiça). Mas se o amor ou Eros é o desejo do belo, e se não o tem, então não é belo (tóin!), e se o desejo do belo implica no desejo do justo, e se o amor não é belo, então também não pode ser justo (tóin, tóin). Esse segundo golpe é muito mais doloroso para uma alma grega, porque definir a amor como a carência da justiça é admitir a falência moral do projeto de pólis.
E assim iam os meus raciocínios e as minhas aulas, até que uma aluna me perguntou: “Mas por que o amor não pode ser amor de nada? E se o nada fosse alguma coisa?” Disse-lhe que, para que a definição assim modificada não recebesse as mesmas críticas que a de Agaton recebeu, o Nada, conceito pelo qual se definiria o amor, não poderia ser “objeto” de desejo: esse Nada teria então que Ser algo que todo mundo já teria e que, ao mesmo tempo, nos definiria. Lancei a questão para os alunos, que a debateram posteriormente no Facebook, da seguinte forma: “O que é, o que é, que todo mundo tem, não preciso desejar, e que nos torna semelhantes aos deuses?” A resposta à pergunta me trouxe à luz ou talvez tenha consolidado no lugar mais elevado o único predicado essencial do amor: a liberdade.
Mas como o amor poderia ser “de nada” e, ao mesmo tempo, ser de algo, da liberdade? Como o amor é definido pela liberdade, como o amor é liberdade, não faria mais sentido a preposição “de”, pois ela nos induz a pensar o amor vinculado a algo que poderia ser objeto de desejo, portanto como carência, nos sujeitando à crítica de Sócrates a Agaton. Assim, a definição de amor se exprimiria por uma igualdade no sentido matemático ou uma equação matemática: amor = liberdade. Ainda assim, se quiséssemos pensar a definição em termos da distinção algo versus nada, teríamos que dizer que o amor é um algo categorialmente muito distinto dos demais algos, mesmo do belo e do justo, perto do que, pensando a questão em termos de extremos e diferenças, chega a ser um nada, porque o amor é a condição de possibilidade do próprio belo e do próprio justo. (Sei que meus “ensinamentos”, se tivessem algo a pedir ou a dever, bateriam, em um ou outro caso, à porta de Descartes).
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