A ironia do senso comum é, por sua vez, uma ironia aleijada de suas premissas; é apenas uma negativa travestida de seu oposto, portanto, tanto quanto um argumento contendo apenas a conclusão não é um argumento, a ironia do senso comum não é ironia porque lhe falta o principal ou o princípio: o processo que levaria à pretendida conclusão. Por exemplo, se se quer dizer, ironicamente, que determinada aula não é boa, faz-se um elogio aparente dizendo que a aula seria maravilhosa, agradecendo ao professor pelo aprendizado ali adquirido. Em outras palavras, a ironia do senso comum não vai além de inverter o significado da conclusão pelo modo como se insinuam as palavras e, por isso, às vezes, se parece mais com o deboche.
Finalizei meu curso sobre O Banquete de Platão ao lado de dois jovens professores convidados**. A um coube ler em grego a narrativa que me propus a elevar à condição de palavras finais: a que fala da forma cordial com que Sócrates, Aristófanes e Agaton terminam aquela longa noite de discussões: como amigos, bebendo vinho na mesma taça e acatando, pela razão, a conclusão de Sócrates de que seria melhor escritor aquele que soubesse unir a tragédia e a comédia. Aquela disposição da aula estava tão bem para mim pois, enquanto bebia, junto com os alunos, um pouco de suco de uva que trouxeram para a nossa despedida, sequer me importei quando ouvi o professor Arthur dizer que as coisas estavam muito bem ordenadas na obra de Platão, e que Aristófanes representava a comédia e Ágaton, a tragédia. Pensei, mas fiquei calado, em algo diferente: que Sócrates estava a falar da ironia, pensamento com o qual eu e Kierkegaard, dessa vez, concordamos. Mas, como disse, o tempo e o mundo já tinham outra disposição, que era a da celebração derradeira e da despedida, a qual coube ao professor Michael e que ressaltou, certamente sob o beneplácito de Platão, a importância e a contribuição do estudo da filosofia para uma vida melhor ou justa. Lá fora, se não tinha um galo, tinha um sino a badalar. Valeu.
* A Editora Vozes republicou, recentemente, o livro dinamaquinal O Conceito de Ironia constantemente referido a Sócrates, de Kierkegaard. O Lado Cômico dos Filósofos e das Filosofias recomenda-o.
** Legenda para a foto: "Três sores: ironia, serenidade e esforço em harmonia".
** Legenda para a foto: "Três sores: ironia, serenidade e esforço em harmonia".
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