Think and Dance

Lyrics by Hingo Weber

sábado, 25 de fevereiro de 2012

diferença entre a ironia de Sócrates e a ironia do senso comum

Digo para os meus alunos que a ironia de Sócrates é uma ironia de três mãos: que Sócrates dá, concede com uma, e tira ou retira o que concedeu com duas. Um aluno me pergunta se eu não quis dizer que Sócrates dá com uma mão e depois puxa com as duas. Pode até ser. Mas achei a minha imagem melhor, mais surreal, como a própria ironia, a de um Sócrates com três mãos (devidamente unidas aos seus respectivos membros). Além disso (a favor da minha imagem), a ironia não é uma ação e um recuo posterior. Ela é ação e recuo ao mesmo tempo. Porém, para que a crítica fique evidente, sem ao mesmo tempo causar dissabores e ressentimentos no interlocutor, é preciso que se retire com mais força do que, ao mesmo tempo, se concede. Não é uma questão de dialética hegeliana, como Kierkegaard* parece, às vezes, querer explicar a ironia de Sócrates. Não há algo como uma síntese, seja o que for, a partir da tese e da antítese. A tese continua como tese, com o seu aparente brilho e fulgor, continua na sua posição original alimentada por uma das mãos de Sócrates. É preciso, inclusive, que assim seja, para manter o interlocutor em uma posição que o faça aceitar ou ver as pressuposições que ele, enquanto alguém que se julga sábio, deve conceder e, consequentemente, desse ponto de vista do encanto, levá-lo a conceder o seu erro ou a sua contradição.

A ironia do senso comum é, por sua vez, uma ironia aleijada de suas premissas; é apenas uma negativa travestida de seu oposto, portanto, tanto quanto um argumento contendo apenas a conclusão não é um argumento, a ironia do senso comum não é ironia porque lhe falta o principal ou o princípio: o processo que levaria à pretendida conclusão. Por exemplo, se se quer dizer, ironicamente, que determinada aula não é boa, faz-se um elogio aparente dizendo que a aula seria maravilhosa, agradecendo ao professor pelo aprendizado ali adquirido. Em outras palavras, a ironia do senso comum não vai além de inverter o significado da conclusão pelo modo como se insinuam as palavras e, por isso, às vezes, se parece mais com o deboche.

Finalizei meu curso sobre O Banquete de Platão ao lado de dois jovens professores convidados**. A um coube ler em grego a narrativa que me propus a elevar à condição de palavras finais: a que fala da forma cordial com que Sócrates, Aristófanes e Agaton terminam aquela longa noite de discussões: como amigos, bebendo vinho na mesma taça e acatando, pela razão, a conclusão de Sócrates de que seria melhor escritor aquele que soubesse unir a tragédia e a comédia. Aquela disposição da aula estava tão bem para mim pois, enquanto bebia, junto com os alunos, um pouco de suco de uva que trouxeram para a nossa despedida, sequer me importei quando ouvi o professor Arthur dizer que as coisas estavam muito bem ordenadas na obra de Platão, e que Aristófanes representava a comédia e Ágaton, a tragédia. Pensei, mas fiquei calado, em algo diferente: que Sócrates estava a falar da ironia, pensamento com o qual eu e Kierkegaard, dessa vez, concordamos. Mas, como disse, o tempo e o mundo já tinham outra disposição, que era a da celebração derradeira e da despedida, a qual coube ao professor Michael e que ressaltou, certamente sob o beneplácito de Platão, a importância e a contribuição do estudo da filosofia para uma vida melhor ou justa. Lá fora, se não tinha um galo, tinha um sino a badalar. Valeu.

* A Editora Vozes republicou, recentemente, o livro dinamaquinal O Conceito de Ironia constantemente referido a Sócrates, de Kierkegaard. O Lado Cômico dos Filósofos e das Filosofias recomenda-o.
** Legenda para a foto: "Três sores: ironia, serenidade e esforço em harmonia".

0 comentários: