Escrevi, aqui, longamente sobre a obra De Vita Beata de Sêneca, apresentando-a como uma obra inovadora e precursora, inclusive, da filosofia moderna. No entanto, não posso deixar de assinar aquilo que efetivamente se pode chamar de um erro de Sêneca: não é simplesmente uma questão de interpretação ou de opinião, mas de um erro, em que Sêneca "argumenta" (portanto, trata-se de um pseudoargumento) contra a sua própria existência, colocando a extinção de sua vida como uma possibilidade de ação racional. Os apontamentos seguintes foram produzidos durante o ano de 2011 a propósito do curso que desenvolvi sobre a obra mais conhecida de Sêneca. Valeu.
Muito se pode preferir: mas não entre a humanidade e a sub-humanidade, muito menos entre a sub-humanidade e a desumanidade (no sentido de não-humanidade).
Há um limite em que a materialidade é constitutiva da própria essência da humanidade, pois a materialidade é meio de vida, meio sem o qual não há vida, pelo menos vida humana digna. Portanto, nem tudo que é material é acessório. Sêneca, ao exercitar a retórica de sua distinção em que apresenta o prazer e a riqueza como acessórios, escorrega, devido às suas exemplicações indistintas, em direção ao erro* que pode, inclusive, ter atenuada, perante a consciência de Sêneca, a ordem de um Nero homicida. Depois, enquanto despenca na ladeira ensaboada do mesmo erro, o “argumento” de Sêneca se incendeia de vez ao colocar a própria possibilidade da morte como opção, como se, na hipótese (absurda) de não termos a nossa condição sub-humana (caso faltasse um pedação de pão na mão estendida sob a ponte do Sublício, “morada” dos mendigos), ainda teríamos como opção a renúncia definitiva à condição humana. Nesse ponto teriam razão aqueles que dissessem que Sêneca afirmou isso porque não foi viver sob a ponte; o máximo que fez foi dormir, em uma cama de bambu, dentro de sua casa esplêndida. Na sua prova de amor à filosofia estoica não renunciou, corretamente, ao mínimo de materialidade necessária para definir a sua humanidade, não obstante a tenha colocado como um ideal evasivo em sua obra principal.
* "E então? Eu vou dizer por que eu não considero as riquezas como bens, e já que todos concordamos em que é preciso possuí-las, como a minha atitude em relação a elas é diferente da de vocês. Ponha-me na mais opulenta das casas, em que se misturem indistintamente o ouro e a prata, eu não vou ficar extasiado diante dessas coisas que, embora estejam em minha casa, estão, no entanto, foram de mim. Leve-me à ponte do Sublício e me jogue no meio dos indigentes: eu não ficarei com vergonha de estar sentado entre os que estendem a mão pedindo esmola. Pois que importa que falte um pedaço de pão a quem não falta a possibilidade de morrer? Que significam essas palavras? Que prefiro a casa esplêndida à ponte" (Sêneca, De Vita Beata (Da Vida Feliz), XXV, 1, tradução de João Teodoro d'Olim Marote).

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