domingo, 18 de março de 2012

Três diferenças e uma semelhança entre a filosofia de Sócrates e a dos sofistas

Da série "procurando por" (searching for);
Ao leitor do Rio de Janeiro (Marvelous City, Brazil):

Tanto Sócrates como os sofistas morreram acusados de não serem sábios. Sócrates morreu acusado pelo tribunal de Atenas e os sofistas pelo tribunal da História.

Quanto às diferenças: Sócrates não cobrava pelas suas lições e os sofistas cobravam muito. Isso tinha a ver, naturalmente, com a qualidade das lições, como esta, do sofista Aristipos, que pediu três minas de prata para o pai de uma aluna. Ao que o pai teria respondido: “É muito! Com esse dinheiro posso comprar um escravo”. E Aristipos: “Age assim que terás dois”.

Sócrates, por meio de sua ironia e do seu método dialético ou maiêutico, demonstrava ser menos do que um amigo do saber, menos do que um filósofo, porque, sendo o que julgávamos saber apenas doxas, falsas opiniões alçadas como suposto saber, o que restaria seria apenas a angústia primordial do nada-saber. A perplexidade que estou a desenvolver: como alguém pode ser filósofo, isto é, amigo do saber, e, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, amigo de coisa alguma, do nada? Os sofistas, por sua vez, como o nome já diz, seriam propriamente os sábios. Recusam a postura humilde dos filósofos, humildade nem sempre socrática e virtuosa, mas carregada de falta de ímpeto para o saber. Outros sofistas, como Aristipos, merecem o nome, como se pode depreender pelo diálogo que narrei no parágrafo anterior.

Uma terceira diferença é uma variação sobre o que já falei acima: para Sócrates, destruídas as doxas, as falsas definições de amor e de justiça, nada mais restaria para o filósofo senão as ocupações domésticas ou tomar um bom banho de rio (como no final de O Banquete). Para os sofistas, resta a erística, que é a arte da persuasão, a arte de parecer que se teria razão, da qual foram os primeiros mestres. Enfim, tudo se interliga, inclusive esse fim, porque uma das utilidades do estudo da erística é a de identificar e despedaçar os argumentos falaciosos dos falsos sábios, utilidade pela qual os sofistas, também vistos como herdeiros de Sócrates (tal como Platão e Diógenes, o cínico), pagam tributo ao mestre.

Da análise das diferenças entre a filosofia de Sócrates e a dos sofistas deriva-se uma nova semelhança: nem Sócrates nem os sofistas eram filósofos.