quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O que é filosofia da ciência?

A filosofia não é de ninguém ou não é de nada, quando muito é do saber, não fosse o saber desejo do saber, portanto carência de Saber, como Sócrates demonstrou tão belamente e tão certeiramente a Agaton no Banquete de Platão.

Não se trata de negar que na ciência se produza um tipo de saber, mas não é sabedoria quanto ao belo ou ao justo, que é o escopo mais genuíno da investigação filosófica. Talvez por isso, por causa de um desespero diante do nada que se afigura perante todo pensador genuíno, que alguns filósofos se digam da ciência, querendo com isso instaurar uma ordem objetiva e às vezes até factual na qual poderiam se agarrar para não serem lançados ao pó primordial ou aos gases primordiais no qual ou em meio aos quais se encenam as perguntas verdadeiramente filosóficas.

Aquele que denuncia a destruição do planeta pela emissão de gases tóxicos, por exemplo, não fala como filósofo da ciência, mas fala como cidadão. Embora a filosofia seja importante, como condição de possibilidade da boa cidadania (porque reflete sobre o belo e o justo), ser filósofo não é o mesmo que ser cidadão. É porque Atenas tinha muitos filósofos e poucos cidadãos que Sócrates foi sentenciado à morte. Portanto, os filósofos, entre eles o próprio Sócrates, não tiveram nenhuma culpa na morte de Sócrates.

Ao filósofo cabe descrever as condições muito gerais da máquina mental, como Aristóteles o faz com as suas categorias. Ao cidadão cabe agir; entre as ações, ser taxado e pagar impostos. Não há nenhum filósofo que tenha mudado minimamente o mundo, nem para o bem, nem para o mal (O que não deve soar como uma cobrança, mas como um limite que não é possível transcender sem deixar de atuar como filósofo; estou certo de que não estou aqui a discutir contra Marx e sua célebre tese XI sobre Feuerbach, como já o pude dizer em outro breve texto meu).

O cidadão muda o mundo, em geral, para mal. Pela sua indiferença ou paz do rebanho na qual prosperam a demagogia ou até a tirania. Ou mesmo por sua atuação “baseada” em uma doxa ou uma falsa definição de justiça, por exemplo. Por isso que o cidadão que grita contra a filosofia declarando-a como a atividade dos perdedores de tempo, grita contra si mesmo, não pelo que ele é como cidadão, mas pelo que ele poderia ser perante uma improvável boa cidadania.

A filosofia da ciência pode ser vista, assim, como um esforço do filósofo em querer mostrar-se útil a uma sociedade que, historicamente, desde Platão, tem execrado a filosofia, lançando sobre ela uma “onda de ridículo”. Mas essa suposta utilidade não faz mais do que reinstaurar na própria filosofia (e aqui é preciso considerar um certo desenvolvimento histórico) a confusão entre investigação transcendental ou gramatical e investigação empírica ou factual.

Por isso que, modernamente, nas novas pedagogias das competências e habilidades, por uma influência do rebotalho da antiga filosofia que se propunha como uma teoria do conhecimento ou uma filosofia da ciência, que a filosofia passou a fazer parte do núcleo comum das disciplinas da área de ciências humanas, transformando as novas gerações de professores de filosofia, se seguissem a essa determinação superior, em pesquisadores de fatos e de eventos naturais e sobrenaturais, não obstante, resgatando esses fatos dos erros dos próprios filósofos do passado, com distinções e peculiaridades de arrepiar os cabelos como o mundo das ideias de Platão e a coisa cogitante de Descartes.